sábado, 7 de novembro de 2015

Ler o passado ajuda a construir o futuro



Há alguns escritores que nos aconselham a ler os clássicos. Professores, jornalistas e educadores em geral também têm feito isso de umas décadas para cá. E por quê? Devido ao número reduzido de pessoas hoje que se dão ao trabalho de se debruçar sobre estas obras ditas clássicas.
Nas escolas seja de que nível for, principalmente no Brasil, quase não se incentiva a leitura dos clássicos, chegando mesmo a ser corrente a ideia de que são textos muito difíceis e inacessíveis à juventude de hoje. Claro que discordamos disso porque não podemos aceitar que cérebros do século XXI sejam inferiores aos cérebros do século passado ou de qualquer outro que nos antecedeu.
Assim, precisamos primeiro definir o que é clássico, expor algumas razões para a leitura dos mesmos e defender a ideia de que rechaçar o passado faz parte de uma ideologia que tem intenções específicas que visam a massificação mais forte da população mundial para um controle e manipulação determinados a serviço de interesses globais, apoiados por velhas instituições que não se renovam e querem manter-se no poder, custe o que custar.
 Não, não defendemos uma teoria da conspiração, porque isso é claro demais para fazer parte de lendas urbanas ou teorias conspiracionais de governos ocultos, até porque, nada há de oculto. Somente a ignorância é que dá a desculpa do oculto. Hoje, temos informações suficientes e disponíveis gratuitamente para que não se acredite em ideologias terroristas.
Este já é um dos argumentos em defesa da leitura dos clássicos: deixar de ser enganado e/ou manipulado por interesses escusos e mal intencionados. Mas o que é um clássico? É apenas uma obra antiga? Quanto tempo ela tem que ter de existência para ser considerada antiga? 15, 30, 50, 100 anos ou mais? E toda obra antiga é um clássico? Um clássico tem que ser considerado antigo (leia-se velho na linguagem de uma juventude desinformada)?
Ítalo Calvino, autor de Seis propostas para o terceiro milênio,  tem um curto mais elucidativo artigo em defesa da leitura dos clássicos no livro de mesmo nome - Por que ler os clássicos. Na realidade, ele relaciona 14 definições para o qualificativo "clássico" e a partir das definições está feita a defesa em prol de sua leitura. Eu sigo mais adiante, pois creio que a importância não fica muito clara apenas com a definição do que é um clássico, pelo menos para nós brasileiros, pelo menos para uma massa de leitores jovens que estão sendo enganados neste país.
Um clássico é uma obra fundamental para a construção do humano no ser. É comum dizermos que pertencemos a raça humana, mas não sabemos o que isso significa. É apenas um adjetivo para nos diferenciar da raça animal, pois nossa semelhança com todo bicho é mais que evidente, é genética. Logo, o que nos diferencia dos animais? O ser humano. E o que é ser humano? É pensar? Raciocinar? É possuir diversas inteligências?
Estudos de Biologia têm provado que muitos animais comungam conosco destas potencialidades. Os animais pensam, possuem inteligências, seu instinto é uma forma de racionalidade... enfim, o que realmente nos torna únicos como espécie? O ato de sonhar e criar, de poder mudar, modificar, a si mesmo e ao mundo em volta. A capacidade de melhorar a si e o ambiente, isto nos diferencia dos animais. E o que isso tem a ver com a leitura dos clássicos?
Uma obra clássica é uma obra de criação. A criação de um sonho. A observação de uma ou mais possibilidades de existir, de ser, de estar no mundo. E as obras clássicas são a nossa revelação, o nosso sonho, a nossa criação. Cada obra nos revela um pouco como seres cheios de infinitas possibilidades e deixar de ler estas  obras, de ao menos conhecê-las, é deixar de saber sobre si mesmo, sobre o nós humanos que somos. Uma obra clássica pode ser antiga, mas não é velha nem ultrapassada. Há autores novos, de produção recente, que já produziram obras que podemos chamar de clássicas. Eu cito apenas um de uma grande lista - José Saramago, autor de o Ensaio sobre a cegueira e Evangelho segundo Jesus Cristo.
Uma obra clássica traz em si uma atualidade que podemos dizer quase absurda, pois como um texto do século XVI ou mesmo de séculos antes do calendário oficial romano (A.C) pode ter tanta atualidade? Eu me refiro a Odisseia de Homero, a Hamlet/ Otelo de Shakespeare, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto ou mesmo a Dom Quixote de Cervantes. Em todas essas obras podemos ler o homem e a sociedade de hoje, suas angústias, suas contradições, seus problemas mais prementes. Nestas obras está presente o mesmo homem de hoje e é isso que (deveria) nos surpreende(r).
Uma obra clássica nos situa num contexto cultural. Somos seres políticos no sentido de convivência e relacionamentos sociais - da polis (cidade). E a criação cultural responde sempre a um processo de continuidade (evito o termo evolução, pois traz o conteúdo valorativo de melhor). Ou seja, uma obra se refere a outra que se refere a outra, que relê outra e assim por diante. Se alguém desconhece as obras que a antecederam pode cair no erro de desvalorizar a atual ou supervalorizar algo que não tem valor em si por ser mera repetição sem contexto, modismo, literatura intencional massificante.
Podemos definir uma obra clássica também usando o recurso dialético da negação. Um clássico não suscita emoções corriqueiras e banais, não faz chorar de modo apelativo, não aponta soluções fáceis, não esgota na página final do livro, não conta apenas uma história como uma notícia de jornal, não desaponta, não induz, não faz profecias infundadas globalizantes. Logo, podemos com essas não definições, descartar muitas publicações que estão sendo vendidas como:  os mais vendidos, os mais importantes, best sellers  ou o rótulo propagandístico que seja.
Poderíamos elencar 30, 50 ou mesmo 100 obras clássicas fundamentais da cultura ocidental e ainda seria pouco. Da literatura brasileira e portuguesa, seria fácil eleger pelo menos 50 obras que deveriam ser lidas ao longo dos 7 anos escolares quando se ingressa numa certa maturidade (6º ano fundamental ao 3º ano ensino médio). Isso garantiria, com certeza, uma boa formação aos ingressos no ensino superior, fosse para que área fosse.
Todavia, quando nós defendemos a leitura dos clássicos, defendemos a leitura integral, não adaptada, pois não se trata de saber uma historinha, um resumo de enredo, uma informação do que se trata e sim de ter a experiência do texto com sua dificuldade, sua linguagem, seu mistério. A experiência direta da fruição, acompanhada de professores ou tutores experientes e bem formados, produziriam, com certeza, uma boa leitura, inclusive, um prazer ainda desconhecido de nossos estudantes. Com isso, poderemos promover o crescimento, a maturação deles hoje, preparando-os realmente para a vida, disponibilizando a variedade para o bom exercício da escolha e estrutura para a continuidade de sua formação.
Umberto Eco, autor de o Nome da Rosa,  não só defende a leitura dos clássicos como a coexistência do livro físico com os eletrônicos. Ainda não chegamos ao estágio de adaptações rápidas e nossos olhos precisam talvez de alguns séculos para se habituar à leitura nestes meios sem maiores danos que os já conhecidos. Entretanto, é bom frisar: sempre existirão as obras que não estarão disponibilizadas nos meios contemporâneos, por diversos motivos. E para que não caiamos em nenhuma idiossincrasia fundamentalista, a manutenção de livros físicos nas bibliotecas, inclusive dos clássicos - pelo menos nas maiores - é essencial.
"Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes)." 1
 Para terminar, não podemos aceitar a desculpa de que jovens não são capazes de ler as obras que os antecederam. Se isso acontece, é chegado o momento de questionar nossas escolas, com seus conteúdos e professores, didáticas e pedagogos. Um indivíduo não pode passar  9 ou 12 anos de sua vida e sair igual ou pior que entrou numa instituição que promete a formação e o crescimento de cada um. Não pode sair odiando toda leitura, seja clássica ou não. Sair sem conseguir realmente ler, seja o que for, conforme nos informam os dados de alfabetizados funcionais atualmente no país hoje.
 Não acredito na deformação ou na minoração da capacidade cerebral de nenhum indivíduo que tenha nascido saudável neste século. Aposto sim na falência de um modelo escolar pleno de ideologias e idiossincrasias, preocupado com o proselitismo e não com a formação de um cidadão pleno e consciente dos seus direitos e deveres, inclusive no que toca ao contexto artístico-cultural. E apoio minha reflexão com as dos filósofos Edgar Morin (A cabeça bem feita) e Pierre Bourdier (A economia das trocas simbólicas).
"Se consegui ver mais longe é porque estava sobre os ombros de gigantes."2

1. CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. Cia das letras, 1991. p11
2. HAWKING, Stephen. Sobre os ombros de gigantes. Elsevier, 2005, p.12.

por Cris Danois










domingo, 22 de setembro de 2013

NOVO GÊNERO LITERÁRIO?

As grandes e médias editoras não cessam de manipular o imaginário das pessoas, inventando gêneros que nada tem a ver com a evolução ou progresso da Literatura Universal. Editados para fins comerciais, os gêneros criados dentro de grandes escritórios determinam o que vai ser consumido, lido ou não, pela maioria das pessoas. As tiragens são de milhões de exemplares, já traduzidos para os principais idiomas do mundo. Ainda nem chegaram às Livrarias e já saem com a frase marqueteira: um milhão de cópias vendidas.
    Em contrapartida, editoras nacionais, menores ou iniciantes, aderem o modelo a fim de angariar fundos rápido e enriquecer, não há outro motivo para que se dediquem todos ao mesmo gênero. Fazendo uma retrospectiva, este tipo e outros menos divulgados, sempre fizeram as festas das massas. Vendidos em feiras, publicados em jornais menores como folhetins, o gênero “dama das camélias”, erótico, western e pseudo-policial, era vendido barato, aliás, bem barato, custando cerca de um ou dois reais no máximo e não o que custam hoje – observem a manipulação! Não tinham nenhum cuidado literário nem vocabular, ao contrário, primando pela simplicidade para ser facilmente digerido pelas classes mal alfabetizadas, o que chamamos hoje de analfabetos funcionais, era um passatempo em ônibus superlotados, trens e filas de espera intermináveis onde só o povão ficava.
    Comparando à sétima arte, o gênero erótico ou pornô, sempre foi veiculado com restrições de idade e disposição nas locadoras. Nunca foi enaltecido como o gênero de arte, tendo o seu devido lugar dentro do espectro cinematográfico - sub-arte. Caracterizam-se por enredo pobre, visando um único fim, o ato sexual em si, seja de que forma ou natureza for.  O mesmo não acontece com os livros que estão expostos em todas as livrarias na cara de todos os clientes e adolescentes, que mal conseguem se afirmar no mundo ou ter ideias. São capturados pelo instinto e pior, sem necessidade, já que os hormônios dão bem conta do assunto. Os adolescentes e jovens não precisam de estímulo para exercer sua sexualidade. O que ocorre, então, é uma hipertrofia que canaliza toda a atenção e energia para um só fim. E essa mesma sociedade é que combate a gravidez e sexualidade na adolescência além de outras consequências nefasta do sexo indiscriminado, com programas escolares e sociais. Hipocrisia, apenas isso, hipocrisia!
    As mães (porque esse gênero está como sempre muito mais direcionado ao público feminino, hoje simbolizando a liberdade da mulher!) são as primeiras a lerem e passarem para suas filhas, como se não tivesse nada demais elas serem mentalmente mais estimuladas do que já são hoje. E a questão que se coloca é a seguinte: com tanta liberação através de todos os meios de comunicação e agora arte, para que tanto estímulo numa só direção, já que o texto não acrescenta nada além do pobre enredo “picante” com descrições mais ou menos explícitas de jogos sexuais, mudando o nome da personagem, seu endereço e lugar de trabalho... no mais, tudo igual?    Façamos livros sobre o ato de comer, sobre gula, sobre glutões, sobre pessoas gordas e compulsivas... creio que não daria muito certo, afinal, são pouco os que aguentam ultrapassar os limites da normalidade, da satisfação estomacal. Mas sexualmente falando, nada é o bastante e cai-se no vazio extremo com provocações constantes do sexo pelo sexo. Há blogs, páginas de face, digestivos culturais escritos por jornalistas e porfessores de literatura (pasmem!) que enaltecem o gênero com receio de caírem no ostracismo, no esquecimento, no remar contra a maré, hipervalorizando os romances que chegam como comidas enlatadas, fast-food, prontinhas para consumo rápido e imediato. Foram-se anjos, vampiros, lobisomens e súcubos... Venha e perpetue-se a baixaria erótica.
    Como o objetivo básico e único das editoras é ganhar dinheiro, faturar lucros enormes (exorbitantes) sempre crescentes, este gênero está fadado a permanecer, com variações idiotas do mesmo tema, pois que, no fim, falar de sexo pelo sexo em si, vira uma mesmice. E os autores ou autoras, já repararam nos nomes - alguns são grotescos - e a maioria não existe. São escritos por grupos de funcionários que trabalham como copy desk nas grandes editoras para sobrevivência... alguns são jornalistas, mas se escondem atrás desses nomes de efeito. O mesmo não ocorre com a boa e verdadeira literatura, essa sim, totalmente esquecida além de perdida, segue seu rumo no anonimato, percorrendo outros caminhos de divulgação.  Ninguém arrisca mais a inovação artística como se tudo já tivesse sido feito e escrito... não há mais manifestos, propostas, movimentos artístico-literários...  
Entretanto, quanto mais veiculam e adotam essa baixa literatura, menos capacidade de absorver a boa literatura e os clássicos se desenvolve. E pensar que Ítalo Calvino e outros poucos grandes nomes da Literatura já gastaram tempo mostrando e provando a importância de se ler os clássicos, seja de literatura ou mesmo de Filosofia. E os compêndios do tipo 100 livros para se ler antes de..., 100 melhores contos universais, 100 melhores isso ou aquilo, em nenhum consta esse tipo de leitura.
    Outra hipocrisia: os jovens passam o período escolar quase todo sem leitura, com baixa literatura, lendo literatura estrangeira enlatada, quando leem,  e na véspera do vestibular a cobrança é pelos clássicos. Incoerência, absurdo, insensatez total. Em alguns meses, o vestibulando vai ler e absorver uma boa literatura, assim de pronto, sem comentários, sem estudo, depois de ter deixado seu cérebro frouxo anos seguidos? Quem orienta isso? A troco de que esse disparate, esse abismo, essa burrice para não dizer maldade? Os mesmos professores, que não adotam leituras decentes durante todo o  ensino médio, não trabalham os textos em sala de aula com mil desculpas, são os que fazem os programas para o ingresso nas Faculdades, quando não ajudam na elaboração das provas. Resultado: a minoria elitista, rica, de colégios particulares com ensinos diferenciados ingressam nas grandes universidades, mormente as públicas. Ao resto, sobra o pagou-passou.
    Bom, minha crítica está longe de ser puritana ou saudosista. É fortemente política com base filosófica, psicológica e pedagógica. A quem interessa esse grande circo armado? A quem interessa essas manipulações das massas, incluindo cada vez mais setores da sociedade? Um pouco de leitura de História séria traria a resposta para a ponta da língua.

Cris Danois
 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O FUTURO DO LIVRO E DA LEITURA


    Desde o início da chamada era digital, vem-se comentando, especulando, prevendo, induzindo o fim do objeto livro. Uma das maiores invenções da Humanidade, o livro vem se desenvolvendo há séculos e podemos dizer, ainda não terminou, não esgotou todas as possibilidades e surgiu a versão digital para competir com ele. Entretanto, apesar dos maus agouros, acredito na permanência do livro por muito tempo. Grandes autores, professores, filósofos e pensadores corroboram esta ideia, vide o livro de Umberto Eco sobre a questão – O Fim do livro (2010). Temos que repensá-lo, que refazê-lo, mas ainda é um dos melhores objetos para leitura e desenvolvimento do conhecimento humano.
    O computador como veículo seja em que formato for, ainda é muito incomodo para leitura. Em termos de pesquisa e comparações fica inviável. Apesar do grande número de possibilidades em conteúdo, a maioria é repetitiva e grande parte não confiável ou parcial. Não consigo ver outra forma mais confortável e dinâmica de pesquisar sobre um assunto que vou escrever que ter uma mesa cheia de livros abertos, poder virar páginas, marcar as páginas ou partes do texto a citar, colocar pesos de papel, canetas ou lápis entre elas... enfim, interagir com os livros a fim de concluir alguma coisa, de produzir outro texto, outro livro, acrescentar mais um ponto no Universo do conhecimento.
    Muitos reclamam do custo do livro, das consequências para publicação dos mesmo, mas não se pensa no quanto se ganhou e se ganha com sua publicação. Não falo apenas economicamente, mas social e espiritualmente. Não são os livros os maiores responsáveis pelo desmatamento. Não são os livros os responsáveis pelo aquecimento global, pela poluição do ar e das águas, pela fome e miséria devido a má distribuição da renda do mundo, pelas doenças terminais, pelas guerras. Ao contrário, acredito que se a Humanidade tivesse consumido mais livros, conhecesse mais sobre o mundo em que vivemos e nós mesmo, muitos problemas seriam resolvidos ou até mesmo deixariam de existir.
    O objeto livro permite, além da viagem da leitura, a liberdade de escolha para sua fruição – pode-se ler onde quiser, como quiser, em qualquer lugar independente de energia elétrica ou conexões. O lançamento do Kindle da Amazon é até interessante, mas não permite uma série de movimentos típicos de um leitor atento e interessado. É cansativo, apesar de ser menos que a tela de um monitor ou notebook. Mesmo no tablet, cansa-se mais que a leitura feita no papel. Deixo esta indicação para que os médicos e pesquisadores examinem a questão isentos de propinas. Os outros que vieram em seguida, são inferiores. Os e-books são caros para o que são e cansam da mesma forma, além de muitos estarem incompletos, não sei porquê. Tem ainda o caso dos livros editados antes desta febre.
    Quanto aos livros infantis, estes não serão substituídos tão cedo. Ao contrário; o nível de desenvolvimento gráfico dos livros infantis tem crescido tanto que hoje só não começa cedo a leitura quem realmente os pais não querem ou não deixam. Os livros têm até cheiro... só falta sabor. Podem dormir neles, tomar banho com eles, comer com eles, fazer tudo que um amante da leitura sempre quis fazer com seus livros de papel. São interativos, respondem perguntas, desafiam o leitor além de contar a história. E as ilustrações? Este é um mundo à parte que convive com o universo do texto escrito que também tem sofrido alguns embates e preconceitos. Mas nada como um livro bem ilustrado. Um ilustrador alemão, que não me recordo o nome agora, depois de diversos livros ilustrados à mão, fez sua incursão na ilustração digital. Sua experiência e vivência foram relatados na última feira de livro infanto juvenil de Frankfurt: ele detestou a experiência, como usuário e como fruidor. O resultado final ficou “clean” como dizem, “perfeito”, bem realista, mas perdeu em conteúdo humano... não respira, diz ele.
    O computador com suas variantes, os programas e softwares foram desenvolvidos como ferramenta, não como um fim em si mesmo. Eles ajudam a realizar determinadas tarefas muito bem e melhor, mas aquilo que é da esfera do humano, do lado transcendente, impalpável, sentimental do ser humano, somente o homem pode fazer e realizar colocando sua alma no que faz. É como dizer que o chat substitui o bom bate-papo! As ilustrações vibram, conduzem os olhos, a alma do leitor, traçam caminhos onde quem lê, viaja. Acrescentam aos textos imagens suprimidas, implícitas, deduzidas.
    Os números e a estatística indica a questão do livro de forma positiva. Cresceram o número de editoras, no Brasil e no mundo. Cresceram o número de publicações. Aumentou o número de Livrarias, feiras e eventos de livros. Aumentou a oferta de livros abrangendo uma gama maior de empresas que não são livrarias. E, apesar do brasileiro continuar a ler muito pouco (1 livro por ano!), o número de leitores estrangeiros aumentou consideravelmente.
    Logo, podemos concluir que o mercado do livro, seja para o editor, o distribuidor, o livreiro, o autor, o ilustrador e os empresários ligados a área, está em crescente ascensão. Ainda não chegamos ao ponto ideal no Brasil – estimular mais a leitura, a compra do livro, o ato de fazer uma pequena biblioteca particular de gosto próprio... tudo isso precisa passar pela Educação. Principalmente, o ato de pesquisar que, há algumas décadas era baixo e hoje, apesar de ter crescido com o incremento das Universidades, é de baixa qualidade, precisa ser ensinado e cultivado desde o ensino fundamental, com ênfase nos cursos superiores. Precisamos formar uma nação de consumidores de livros, pois dentro deles está toda a cultura possível.





  
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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mais obras da Biblioteca Nacional na Biblioteca Mundial Digital



    Um conjunto  de mais 110 fotografias raras da Biblioteca Nacional, pertencentes ao álbum Siege de Paris: 1870–1871 (O cerco de Paris: 1870–1871), feitas pelo francês Auguste Bruno Braquehais (1823–1875), pioneiro do fotojornalismo, passou a integrar, a partir da semana passada, o disputado acervo da Biblioteca Digital Mundial (WDL em inglês). O álbum faz parte da coleção Thereza Christina Maria, compilada pelo Imperador Pedro II e doada por ele à Biblioteca Nacional. A Coleção do Imperador: Fotografias brasileiras e estrangeiras do século XIX, com cerca de 23 mil fotografias do século XIX, é reconhecida pela Unesco, desde 2003, como Memória do Mundo. Veja aqui as novas fotos da Biblioteca Nacional brasileira na WDL. Acesse aqui todas as fotos da nossa coleção disponíveis na WDL.


Biblioteca Digital Ibero-Americana

A Biblioteca Nacional participou, esta semana, do lançamento da Biblioteca Digital do Patrimônio Ibero-americano  (BDPI), da qual é uma das fundadoras. Trata-se de uma iniciativa da Associação de Bibliotecas Nacionais da Ibero-América (ABINIA) cujo objetivo é a criação de um portal para a consulta e acesso aos conteúdos digitais inicialmente das bibliotecas nacionais do Brasil, Chile, Colômbia, Espanha e Panamá. Clique aqui e conheça as coleções da BN Digital que integram a Biblioteca Digital Ibero-americana.

sábado, 18 de agosto de 2012

Ziraldo tem toda razão

     Um bom artista distinguem-se das pessoas comuns não somente pela capacidade criativa ou pela capacidade de enxergar além do visível mas também pela crítica perspicaz,construtiva, muitas vezes irônica, da sociedade onde se vive. Poderia ter várias criticas contra Ziraldo mas não poderia de deixar de admira-lo pelas palavras que disse na última bienal. Poderiam até ser suas últimas palavras, mas só por tentar desmascarar nossa atual sociedade, por tentar tirar o óculos cor-de-rosa com que vários "pedagogos", raça que já deveria ter sido extinta , pais e futurosos de plantão insistem em usar, Ziraldo já merece todo o nosso crédito como grande artista.
    "A família brasileira não lê. Nós temos a internet que pode ser a fonte da vida e do conhecimento, mas o computador é usado como brinquedo. Muitos pais não percebem, mas seus filhos se tornaram idiotas” . Perfeito Ziraldo , concordamos em gênero número e grau. Lendo os comentários sobre essa frase, percebi que não só os filhos estão se tornando idiotas , os pais também. Não conseguem nem entender uma simples crítica. Se Ziraldo tivesse dito: nós temos o martelo que é uma excelente ferramenta mas é usado como brinquedo, teríamos muito menos críticas.  O problema que Ziraldo ressalta não é o computador mas sim o que fazemos do mesmo. As pessoas pensam que estão lendo mais e ficando mais sábias por causa da tecnologia e quando alguém ataca essa lei, é severamente atacado. Mas a realidade é completamente oposta. O brasileiro, principalmente, acha que esta lendo mais por acessar mais o facebook , quando na verdade fica atrás de países como Argentina, Índia e etc. no quesito leitura de livros. 
      A leitura de um livro, volto a ressaltar, não tem somente a ver com o adquirir conhecimento; o que por si só já seria mais do que uma justificativa.Entretanto, tem algo muito mais profundo. Tem a capacidade de observação, de abstração, de percepção, de cognição. o que a torna a  verdadeira malhação cerebral. Ficar horas lendo meio textos, 140 caracteres, ideias desconexas, sem ritmo, sem profundidade, é pura divagação e isso nunca deu nem vai dar o que uma verdadeira leitura pode oferecer. Por isso, nosso filhos estão ficando idiotas sim e a tendência é ficar cada vez mais.
    Enquanto alunos no MIT estão aprendendo com parede de quadros, os nossos estão querendo parede de facebook . Claro que isso vai ter consequências  , aliás já está tendo. Enquanto não investirmos realmente em educação , não adianta de nada sermos o sexto maior PIB do mundo graças as nossas riquezas minerais. Voltaremos a ser a colonia que sempre fomos, somente um pouco mais moderninha e com alguns senhores de escravos a mais. Só podemos mudar isso com a educação , o que inclui leitura, muita leitura , muito esforço e dedicação. Talvez esse seja o problema. Pois sempre que dizemos esforço, muitos contestam e acham melhor a velha sombra e água fresca da teledramaturgia brasileira. Mesmo que esta velha sombra seja feita agora pela parede do facebook e  que água seja fresca porque está dentro do ar-condicionado. Obrigado Ziraldo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Carta aberta à Presidenta Dilma Rousseff - 13 FISL



Nós, participantes do 13º Fórum Internacional Software Livre, realizado em Porto Alegre entre 25 e 28 de julho de 2012, tomamos a liberdade de escrever esta carta pública endereçada a Excelentíssima Presidenta da República Dilma Rousseff, em nome da comunidade software livre brasileira, com o objetivo de manifestar nossa posição diante das políticas públicas na área de tecnologia da informação e internet implementadas por vosso governo.
Não poderíamos deixar de relembrar aqui a histórica visita que Vossa Excelência, e o então Presidente Lula, fizeram a este mesmo fórum, em sua décima edição, em 2009. Esta visita, que muito nos orgulhou, foi uma verdadeira celebração das liberdades digitais, e um reconhecimento dos esforços da comunidade software livre internacional, e, especialmente brasileira, na luta pela manutenção do conhecimento como bem comum. Os avanços e conquistas invejáveis produzidos pelas políticas públicas do governo federal do Brasil em direção às liberdades e à soberania tecnológicas foram reconhecidos e reafirmado o compromisso com esses valores.
Além do encontro do então Presidente Lula com os principais expoentes da comunidade software livre internacional, o momento foi marcado por seu discurso memorável, no qual o Presidente afirmou que em seu governo era “proibido proibir”, que “Lei Azeredo é censura”, além de determinar publicamente ao então Ministro da Justiça, Tarso Genro, a construção de um marco civil da internet.
Na oportunidade, Lula também reafirmou a defesa do software livre no seu governo, e foi ovacionado pelo público presente ao afirmar, em nome de todos os brasileiros:
"Nós tínhamos que escolher: ou nós iríamos para a cozinha preparar o prato que a gente queria comer, com os temperos que nós queríamos colocar e dar um gosto brasileiro para a comida, ou nós iríamos comer o prato que a Microsoft preparou para a gente. E, graças a Deus, prevaleceu, no nosso país, a questão e a decisão pelo software livre".


Além do compromisso assumido e cumprido durante o Governo Lula, e reafirmado pelo então Presidente durante o fisl10, em 19 de janeiro de 2010, no primeiro mês do vosso governo, foi publicada a Instrução Normativa nº 1, que dispôs sobre os critérios de sustentabilidade ambiental na aquisição de bens, contratação de serviços ou obras pela Administração Pública Federal. Dentre as diretrizes, destacam-se as determinações que proíbem o uso de componentes, ferramentas, códigos fontes e utilitários proprietários, e também a dependência de um único fornecedor, dando preferência ao uso de software livre - mais uma mostra de que o governo federal tinha ciência dos benefícios do tratamento dos bens imateriais como bens de domínio público, e da importância da manutenção do livre acesso ao conhecimento e seu compartilhamento como ferramenta de incentivo à democracia.
No entanto, hoje algumas questões pontuais têm deixado a todos nós, militantes do software e do conhecimento livre, apreensivos:
  • A retirada da licença livre Creative Commons do site do Ministério da Cultura e sua mudança de posicionamento em relação à reforma dos direitos autorais e às liberdades civis na internet;
  • A introdução, no acordo do Ministério das Comunicações com as Teles em relação ao plano nacional de banda larga (PNBL), de um grave precedente de limitação e tarifação do volume de dados que trafegam pela conexões das operadoras - como uma espécie de pedágio ou taxímetro cobrado por conteúdos de terceiros;
  • A iniciativa no INPI - Instituto Nacional de Propriedade Industrial - de abrir uma consulta pública indicando o patenteamento do software no Brasil, na contramão de uma das maiores lutas do movimento software livre internacional;
  • O Pregão Eletrônico (N. 116/7066-2012 – GILOG/BR) da Caixa Econômica Federal, na ordem de 112 milhões de reais, que contraria um histórico de investimento em desenvolvimento e adoção de softwares livres produzidos especificamente para a instituição.


Algumas décadas depois de os softwares e a internet terem se tornado elementos indissociáveis de nossas rotinas, já podemos afirmar com sólidos argumentos econômicos, científicos e sociais que:
  • o incentivo e a manutenção da luta pelo Software Livre,
  • a ausência de patentes de software, e a proteção da criação dos mesmos pela lei dos direitos autorais,
  • a manutenção de uma internet livre, neutra e inimputável,

são estratégias não só viáveis como indispensáveis para o despontar do Brasil como um país internacionalmente competitivo no que diz respeito à manutenção da inovação tecnológica, bem como para a manutenção das estratégias de democratização do conhecimento através da Inclusão Digital.
Por fim, confiantes de que podemos restabelecer a interlocução do governo federal com a comunidade software livre, da cultura digital e ativistas por direitos civis na internet, pedimos, publicamente, uma audiência de nossos representantes com Vossa Excelência para que possamos retomar o diálogo construtivo que sempre tivemos com o governo federal nestes últimos anos.


Aproveitamos também para manifestar nosso apoio e parabenizá-la pela condução da política econômica, dos programas sociais, em especial de combate à fome e à pobreza, e na firme postura contra a corrupção em nosso país.

Sem mais, subscrevemo-nos.

Ricardo Fritsch
Coordenador geral da Associação Software Livre.org, em nome dos participantes do 13º Fórum Internacional Software Livre
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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Morre Ray Bradbury , Ícone da Ficção científica.

Faleceu em 5 de Junho o escritor Norte-americano Raymond Bradbury. Famoso por Crônicas Marcianas e Fahrenheit 451 , Ray é um pouco do "self-educated man". Um autodidata que nunca foi para a universidade e como outro grande escritor autodidata (aka Saramago), confessou ter aprendido o seu ofício de escritor frequentando bibliotecas públicas na adolescência onde devorava livros e roubava os jornais ( devolvendo-os após terem sido lidos) . Ray tinha um talento notável para a literatura de fantasia, de sonho e lírica , às vezes tingida de ficção científica . Escreveu mais de 50 livros, algumas peças de teatro ,poesia e adaptações de roteiro para cinema e TV (Mob dick de 1958 com Gregory Peck foi adaptado por ele). Leitor confesso de Hopkins,Frost, Shakespeare, Steinbeck, Huxley e Thomas Wolfe , mas nenhum escritor de ficão científica a não ser os de sua infância : Julio Verne e HG Wells , Ray permaneceu lendo e escrevendo mesmo aṕos um AVC que o impediu de bater a maquina. Seu último trabalho foi ditado pelo telefone a sua filha. " Trabalhar é a [minha] única resposta" Disse em uma entrevista em 2010.  Escrevemos sobre Ray em um post meses atrás em que sua editora só aceitava renovar seu contrato se ele permitisse a publicação de Fahrenheit 451 em formato eletrônico, coisa que ele era radicalmente contra. Em Fahrenheit 451 Ray nós deixa uma espécie de aviso. Sobre a importância dos livros , da leitura e a falta que isso faz a sociedade. E claro , vendo e percebendo cada vez mais sua ficção começar a se tornar realidade , não era de se esperar outro posicionamento seu a respeito dos livros eletrônicos. Ele que tanto aprendeu e que tanto devo ao nosso mestres de papel sabia mais do que ninguém  o que era uma manipulação e aonde isso vai dar . Infelizmente teve que ceder (devido a idade e as condições físicas) , mas como sempre , não cedeu facilmente. O alerta foi dado Ray, obrigado por ter nos avisado .
"Há mais de um jeito de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas por aí com caixa de fósforos. Cada minoria, seja Batista, Unitário, Irlandês, Italiano, Otagenário, Zen Budista, Sionista, Adventista, Feminista, Republicano… Acha que tem o direito, ou o dever, de dosar o querosene e acender o fogo. O chefe do corpo de bombeiros Capitão Beatty, em meu romance Fahrenheit 451, descreve como os livros foram queimados primeiramente pelas minorias, rasgando uma página ou duas, depois disso, quando os livros já estiverem vazios e as cabeças fechadas, a livraria fechará para sempre."
"(...) eu pensei que estava descrevendo um mundo que talvez “aconteceria” em 4 ou 5 décadas. Mas a algumas semanas atrás, numa noite em Beverly Hills, um casal passou por mim caminhando com seu cachorro. Eu fiquei olhando para eles, absolutamente pasmo. A mulher segurava em uma mão um rádio, em forma e tamanho mais ou menos de um pacote de cigarro, com uma antena balançando. Dele saía um minúsculo cabo de cobre que terminava em um delicado fone em forma de cone plugado na sua orelha direita. E ela ia "voando", sonâmbula, esquecida do homem e do cão, escutando à novela que tocava no rádio, guiada por seu marido que provavelmente não estava nem aí. Isso não era ficção."

A absurdidade da existência do FIAT Uno Mille , testes do Imetro e a Imprensa que se vende fácil e não muda.

Ontem (14/05/12)  em uma das chamadas para aquelas matérias da UOL , vinha estampado : "Fiat Mille Fire é o mais econômico no Ranking do Imetro".  E na chamada a foto do bendito FIAT. De cara a foto nos lembra um carro dos anos 80 mas espere aí , estamos em  ? 2012. Isso mesmo , em 2012 o carro mais econômico é um carro desenvolvido lá pelo inicio dos anos 80 ( lançado em 1983, mais especificamente). Claro que nem tudo é o que parece e na mesma hora veio aquela sensação de algo estanho no ar. A matéria, disponível em http://carsale.uol.com.br/novosite/revista/noticias/materia.asp?idnoticia=9391 , não informa nada de extraordinário e ainda de quebra faz propaganda da FIAT pois se observarmos o principal dado da matéria, a tabela do IMETRO(http://www.inmetro.gov.br/consumidor/pbe/veiculos_leves_2012.pdf) temos várias informações muito interessantes que simplesmente passaram digamos,  desapercebidas. Novamente ficamos com aquela sensação de que esse lapso parece mais proposital que mero esquecimento. Parece novamente aquela velha história de que basta pagar para colocar uma matéria que está resolvido. A imprensa de um modo geral continua agindo e pensando da mesma forma que há décadas atrás e não atenta para o mundo em sua volta que está mudando. Essas matérias pagas já não funcionam tanto quanto antes e hoje com a melhoria do nível de educação do população,mesmo que pequena, e da compreensão das ferramentas informatizadas, qualquer pessoa já consegue ler e entender uma planilha.  O que dizer do Uno mille 1.0 ? obsoleto,inseguro, sem ar, sem direção hidráulica, desconfortável ? Não, só sobrou uma característica : o mais barato e agora criaram outra : é o mais econômico. Mas o que é ser o mais econômico na verdade? Claro que um carro com motor 1.0 vai ser mais econômico que um carro com motor 1.4 simplesmente pelo fato de ter menos potência. Mas isso é economia ? Depende muito da situação caro amigo(a).  O Mille é o mais econômico na categoria "Sub-compacto" que na verdade deveria se chamar "sub-carro" . É uma vergonha ainda estarmos produzindo esses lixos como se fossem a supra sumo da modernidade econômica. Em prol da "economia" produzimos carros fora dos padrões de segurança internacionais, sem ar, airbag, ABS, direção hidráulica e outros. Itens supérfluos ? Dirija em um engarrafamento as 13:00 no Rio, Salvador, Natal, Recife ou Fortaleza em Janeiro e você vai ver o que lhe parece supérfluo passa a ser gênero de primeira necessidade. Tenha as rodas da frente travada em uma freagem brusca, ou bata de frente com um carros desses que sua concepção vai certamente mudar. Tive o trabalho de fazer o que na minha infância chamávamos de colagem , pois o Imetro resolveu soltar a planilha em formato PDF , mas pela figura lá em baixo,  já temos uma visão bem mais clara do que falo neste post, aproveite e tire suas prórpias conclusões . Separei todos os carros classificado como "A" , os mais econômicos em suas categorias e coloquei todos juntos. Voilá , duas belas surpresas : Honda Fit e Ford Fusion . Apesar do Honda Fit perder para o Mille no ciclo urbano por menos de 1KM (diferença ridícula) e um pouco mais (1,5Km) no ciclo rodoviário, olha a diferença de carro : Motor 1.4-16V com ar-condicionado ! ABS e Airbags.  Agora meu caro leitor(a) me diga o que é melhor ? E o Ford Fusion ? 13,8 KM no ciclo urbano contra 12,7 da caixa de fósforo. Com um motor 2.5V-16V, Ar,transmissão continua e imensamente maior que o Fiat.No ciclo rodoviário as coisas se invertem (a nível de desempenho) mas esses detalhes não são sequer destacados na matéria da UOL. O que é isso pessoal ? Cade o jornalismo ? Quer fazer propaganda de fabricante , avisa logo no início : "Essa matéria tem o patrocínio de: FIAT" é mais honesto. Parabéns sim, para a Honda e para a Ford , mereciam melhor destaque e não o Mille. Esse sim, já deveria ter sido extinto há muito tempo. E sabe o que é pior ?  Preço de um Honda FIT nos EUA (hoje) : US$ 15.325,00 . Preço de um Mille no Brasil : R$ 21.360,00 . Dá-lhe Brasil ! mas isso é assunto para outra postagem...

Tabela remontada do Imetro com todos os carros classificados como A em matéria de consumo

sexta-feira, 20 de abril de 2012

divagações

Viver a vida é muito dificil. Quando se pensa que aprendeu, voce morre. Cristina Danois

domingo, 25 de março de 2012

Um mundo de petróleo cada vez mais difícil

Um mundo de petróleo cada vez mais difícil

por Michael T. Klare [*] 
Os preços do petróleo agora estão mais altos do que alguma vez estiveram – excepto nuns poucos momentos frenéticos antes do colapso econômico global de 2008. Muitos factores imediatos estão a contribuir para esta alta, incluindo ameaças do Irão de bloquear o trânsito de petróleo no Golfo Pérsico, temores de uma nova guerra no Médio Oriente e perturbações na Nigéria, rica em petróleo. Algumas destas pressões podem diminuir nos meses pela frente, proporcionando alívio temporário na bomba de gasolina. Mas a causa principal dos preços mais elevados – uma mudança fundamental na estrutura da indústria petrolífera – não pode ser revertida e, assim, os preços do petróleo estão destinados a permaneceram altos por um longo tempo daqui para a frente.

Em termos de energia, estamos agora a entrar num mundo cuja natureza implacável ainda tem de ser plenamente apreendida. Esta mutação essencial foi provocada pelo desaparecimento do petróleo relativamente acessível e barato – o "petróleo fácil", na linguagem dos analistas da indústria. Por outras palavras, a espécie de petróleo que impulsionou uma expansão vertiginosa da riqueza global ao longo dos últimos 65 anos, bem como a criação de infindáveis comunidades suburbanas orientadas para o carro. Este petróleo está agora quase acabado.

O mundo ainda dispõe de grandes reservas de petróleo, mas estas são difíceis de alcançar, difíceis de refinar, a variedade "petróleo árduo". A partir de agora, todo barril que consumirmos será mais custoso para extrair, mais custoso para refinar – e, assim, mais caro na bomba de gasolina.

Aqueles que afirmam que o mundo permanece "inundados" de petróleo estão tecnicamente corretos: o planeta ainda dispõe de vastas reservas. Mas os propagandistas da indústria petrolífera geralmente deixam de enfatizar que nem todos os reservatórios de petróleo são semelhantes: alguns estão localizados próximos à superfície ou próximos à costa e estão contidos em rocha porosa; outros estão localizados no subsolo profundo, no offshore distante, ou presos em formações rochosas inflexíveis. Os sítios anteriores são relativamente fáceis de explorar e proporcionam um combustível líquido que pode ser prontamente refinado em líquidos utilizáveis; os segundos só podem ser explorados através de técnicas custosas, ambientalmente arriscadas e muitas vezes resultam num produto que deve ser fortemente processado antes que a refinação possa sequer começar.

A simples verdade sobre o assunto é esta: a maior parte das reservas fáceis do mundo já foram esgotadas – excepto aquelas em países espinhosos como o Iraque. Virtualmente todo o petróleo que resta está contido em reservas mais difíceis de serem atingidas. Isto inclui o petróleo do offshore profundo, o petróleo do Árctico e o petróleo de xisto, juntamente com as "areias betuminosas" do Canadá – as quais não são compostas de petróleo de modo algum, mas sim de lama, areia e alcatrão semelhante a betume. As chamadas reservas não convencionais destes tipos podem ser exploradas, mas muitas vezes a um preço desconcertante, não apenas em dólares mas também em danos para o ambiente.

No negócio do petróleo, esta realidade foi reconhecida primeiramente pelo presidente e CEO da Chevron, David O'Reilly, numa carta de 2005 publicada em muitos jornais americanos. "Uma coisa é clara", escreveu ele, "a era do petróleo fácil está acabada". Não só muitos dos campos existentes estavam em declínio, observou ele, como "novas descobertas de energia estão a ocorrer principalmente em lugares onde os recursos são difíceis de extrair, fisicamente, economicamente e mesmo politicamente".

Nova prova desta mutação foi proporcionada pela Agência Internacional de Energia (IEA) numa revisão de 2010 das perspectivas do petróleo mundial. Na preparação deste relatório a agência examinou os rendimentos históricos dos maiores campos produtores do mundo – o "petróleo fácil" sobre o qual o mundo ainda repousa para o grosso da sua energia de forma esmagadora. Os resultados foram espantosos: esperava-se que aqueles campos perdessem três quartos da sua capacidade produtiva ao longo dos 25 anos seguintes, eliminando 52 milhões de barris de petróleo por dia da oferta mundial, ou cerca de 75% a atual produção mundial. As implicações eram estarrecedoras: ou descobrir petróleo novo para substituir aqueles 52 milhões de barris/dia a Era do Petróleo chegará logo a um fim e a economia mundial entraria em colapso.

Naturalmente, como a IEA tornou claro em 2010, haverá novo petróleo, mas só da variedade difícil que exigirá um preço de todos nós – e do planeta, também. Para apreender as implicações da nossa crescente dependência do petróleo difícil, vale a pena dar uma olhadela a alguns dos mais apavorantes pontos sobre a Terra. Assim, apertem os vossos cintos de segurança: primeiro estamos a ir para o mar para examinar o "prometedor" novo mundo do petróleo do século XXI.

Petróleo de águas profundas

As companhias de petróleo têm estado a perfurar em áreas offshore desde há algum tempo, especialmente no Golfo do México e no Mar Cáspio. Até recentemente, contudo, tais esforços verificavam-se invariavelmente em águas relativamente rasas – umas poucas centenas de metros, na maior parte – o que permitia às companhias utilizarem perfuradores convencionais montados sobre colunas extensas. A perfuração em águas profundas, em profundidades que ultrapassam os 300 metros, é um assunto inteiramente diferente. Ela requer plataformas de perfuração especializadas, refinadas e imensamente custosas que podem custar milhares de milhões de dólares para produzir.

  A Deepwater Horizon, destruída no Golfo do México em Abril de 2010 devido a uma explosão catastrófica, é bastante típica deste fenômeno. O vaso foi construído em 2001 por uns US$500 milhões e custa cerca de US$1 milhão por dia conservar e manter. Parcialmente devido a estes altos custos, a BP estava com pressa de acabar o trabalho do seu malfadado furo Macondo e mover a Deepwater Horizon para outro local de perfuração. Tais considerações financeiras, acreditam muitos analistas, explicam a pressa com a qual a tripulação do vaso selou o furo – levando a uma fuga de gases explosivos dentro do povo e a explosão resultante. A BP agora terá de pagar algo para além de US$30 bilhões para atender as todas as reclamações pelo dano feito com a sua fuga de petróleo maciça.

A seguir ao desastre, a administração Obama impôs uma proibição temporária à perfuração no offshore profundo. Mal se passaram dois anos, a perfuração nas águas profundas do Golfo está outra vez em níveis de pré desastre. O presidente Obama também assinou um acordo com o México que permitia perfurar na parte mais profunda do Golfo, ao longo da fronteira marítima estado-unidense-mexicana.

Enquanto isso, a perfuração em águas profundas está a ganhar velocidade alhures. O Brasil, por exemplo, movimenta-se para explorar seus campos "pré sal" (assim chamados porque jazem abaixo de uma camada de sal) nas águas do Oceano Atlântico muito longe da costa do Rio de Janeiro. Novos campos offshore estão analogamente a ser desenvolvidos nas águas profundas do Gana, Serra Leoa e Libéria.

Em 2020, diz o analista de energia John Westwood, estes campos de águas profundas fornecerão 10% do petróleo mundial, quando eram apenas 1% em 1995. Mas este acréscimo de produção não sairá barato: a maior parte destes novos campos custará dezenas ou centenas de milhares de milhões de dólares para desenvolver e só se demonstrará lucrativo desde que o petróleo continue a ser vendido por US$90 ou mais por barril.

Os campos offshore do Brasil, considerados por alguns peritos como as mais prometedoras novas descobertas deste século, demonstrar-se-ão especialmente caras porque jazem sob 2400 metros de água e 4000 metros de areia, rocha e sal. Serão necessários os mais avançados e custosos equipamentos de perfuração do mundo – alguns deles ainda a serem desenvolvidos. A Petrobras, a empresa de energia controlada pelo estado, já comprometeu US$53 bilhões para o projecto em 2011-2015 e a maior parte do analistas acredita que isto será apenas um modesto pagamento inicial de um estarrecedor preço final.

Petróleo árctico

Espera-se que o Árctico proporcione uma fatia significativa da futura oferta mundial. Até recentemente, a produção no extremo Norte fora muito limitada. Excepto na área de Prudhoe Bay no Alasca e num certo número de campos na Sibéria, as grandes companhias tem geralmente evitado a região. Mas agora, ao verem poucas outras opções, elas estão a preparar-se para grandes investidas num Árctico em fusão.

De qualquer perspectiva, o Árctico é o último lugar para se querer ir a fim de furar por petróleo. As tempestades são frequentes e as temperaturas no Inverno mergulham muito abaixo do ponto de congelamento. A maior parte do equipamento comum não operará sob estas condições. São necessários substitutivos especializados (e custosos). As equipes de trabalho não podem viver na região por muito tempo. A maior parte dos abastecimentos – comida, combustível, materiais de construção – devem ser trazidos de milhares de quilômetros a um custo fenomenal.

Mas o Árctico tem os seus atrativos: milhares de milhões de barris de petróleo inexplorado. Segundo o U.S. Geological Survey (USGS), a área Norte do Círculo Árctico, com apenas 6% da superfície do planeta, contém uma estimativa de 13% do seu petróleo remanescente (e ainda maior fatia do seu gás natural não desenvolvido) – números com que nenhuma outra região pode competir.

Sobrando poucos lugares para ir, as grandes empresas de energia agora estão a preparar-se para uma corrida a fim de explorar as riquezas do Árctico. Neste Verão, espera-se que a Royal Dutch Shell comece furos de teste em porções dos Mares Beauforte Chukchi, ao Norte do Alasca (a administração Obama ainda conceder as autorizações finais de operação para estas actividades, mas espera-se a aprovação). Ao mesmo tempo, a Statoil e outras firmas planeiam perfurar no Mar de Barents, ao Norte da Noruega.

Com estes cenários energéticos extremos, o aumento da produção no Árctico impulsionará significativamente os custos operacionais das companhias de petróleo. A Shell, por exemplo, já gastou US$4 bilhões só nos preparativos para furos de teste no offshore do Alasca, sem produzir um único barril de petróleo. O desenvolvimento em plena escala nesta região ecologicamente frágil, tenazmente contrariado por ambientalista e povos nativos locais, multiplicará este número muitas vezes mais.

Areias betuminosas e petróleo pesado

Espera-se que outra fatia significativa do futuro abastecimento mundial de petróleo venha das areias betuminosas do Canadá (também chamadas "areias petrolíferas) e do petróleo super-pesado da Venezuela. Nada disto é petróleo tal como é normalmente entendido. Não sendo líquidos nos seu estado natural, eles não podem ser extraídos pelos materiais de furação tradicionais, mas existem em grande abundância. Segundo o USGS, as areias betuminosas do Canadá contêm o equivalente a 1,7 trilhões de barris de petróleo convencional (líquido), ao passo que os depósitos de petróleo pesado da Venezuela dizem abrigar outro trilhão de petróleo equivalente – embora nem tudo seja considerado "recuperável" com a tecnologia existente.

Aqueles que afirmam que a Era do Petróleo está longe de ultrapassada apontam estas reservas como prova de que o mundo ainda pode extrair imensas quantidades de combustíveis fósseis inexplorados. E certamente é concebível que, com a aplicação de tecnologias avançadas e uma indiferença total para com as consequências ambientais, estes recursos na verdade serão colhidos. Mas não é petróleo fácil.

Até agora, as areias betuminosas do Canadá foram obtidas através de um processo análogo à mineração a céu aberto, utilizando pás monstruosas para arrancar uma mistura de areia e betume do solo. Mas a maior parte do betume próximo à superfície nas areias betuminosas ricas da província de Alberta foram exauridas, o que significa que toda extracção futura exigirá um processo muito mais complexo e custoso. Terá de ser injectado vapor nas concentrações mais profundas para fundir o betume e permitir a sua recuperação através de bombas maciças. Isto exige um investimento colossal em infraestrutura e energia, bem como a construção de instalações de tratamento para todos os resíduos tóxicos resultantes. Segundo o Canadian Energy Research Institute, o pleno desenvolvimento das areias petrolíferas de Alberta exigiria um investimento mínimo de US$218 bilhões ao longo dos próximos 25 anos, não incluindo o custo de construir oleodutos para os Estados Unidos (tal como o proposto Keystone XL) para processamento em refinarias estado-unidenses.

O desenvolvimento do petróleo pesado da Venezuela exigirá investimento numa escala comparável. Acredita-se que o cinturão do Orenoco, uma concentração especialmente densa de petróleo pesado adjacente ao Rio Orenoco contenha reservas recuperáveis de 513 bilhões de barris de petróleo – talvez a maior fonte de petróleo inexplorado do planeta. Mas converter esta forma de betume semelhante a melaço num combustível líquido excede em muito a capacidade técnica ou os recursos financeiros da companhia estatal, Petróleos de Venezuela SA. Consequentemente, ela está agora à procura de parceiros estrangeiros dispostos a investir os US$10 a 20 bilhões necessários apenas para construir as instalações necessárias.

Os custos ocultos

Reservas difíceis como esta proporcionarão a maior parte do novo petróleo do mundo nos próximos anos. Uma coisa é clara: mesmo se puderem substituir o petróleo fácil nas nossas vidas, o custo de tudo o que está relacionado com petróleo – seja a gasolina na bomba, produtos com base no petróleo, fertilizantes, tudo por toda a parte das nossas vidas – está em vias de ascender. Habitue-se a isto. Se as coisas decorrerem como se planeia atualmente, estaremos pendurados no big oil nas próximas décadas.

E estes são apenas os custos mais óbvios numa situação em que abundam custos ocultos, especialmente para o ambiente. Tal como no desastre do Deepwater Horizon, a extração em áreas do offshore profundo e em outras localizações geográficas extremas garantirá riscos ambientais sempre maiores. Afinal de contas, aproximadamente 22 milhões de litros de petróleo foram despejados no Golfo do México, graças à negligência da BP, provocando danos extensos a animais marinhos e ao habitat costeiro.

Recordar que, por mais catastrófico que fosse, ele ocorreu no Golfo do México, onde podiam ser mobilizadas forças amplas para a limpeza e a capacidade de recuperação do ecossistema era relativamente robusta. O Árctico e a Gronelândia representam um risco diferente, dado a sua distância das capacidades de recuperação estabelecidas e a extrema vulnerabilidade dos seus ecossistemas. Os esforços para restaurar tais áreas na sequência de fugas de petróleo maciças custariam muitas vezes os US$30 a 40 bilhões que a BP pretende pagar pelo danos do Deepwater Horizon e serão muito menos eficazes.

Além de tudo isto, muitos dos campos de petróleo difícil mais prometedores estão na Rússia, na bacia do Mar Cáspio, e em áreas conflituosas da África. Para operar nestas áreas, companhias de petróleo serão confrontadas não só com os custos previsivelmente altos da extração como também com custos adicionais envolvendo sistemas locais de suborno e extorsão, sabotagem por grupos de guerrilha e as consequências de conflitos civis.

E não esquecer o custo final: Se todos estes barris de petróleo e substâncias afins do petróleo forem realmente produzidos a partir dos menos convidativos lugares neste planeta, então nas próximas décadas continuaremos a queimar combustíveis fósseis maciçamente, criando sempre mais gases com efeito estufa
como se não houvesse amanhã. E aqui está a triste verdade: se prosseguirmos no caminho do petróleo difícil ao invés de investirmos maciçamente em energias alternativas, podemos excluir qualquer esperança de impedir as mais catastróficas consequências de um planeta mais quente e mais turbulento.

De modo que, sim, há petróleo não convencional. Mas não, ele não será mais barato, não importa quanto haja. E, sim, as companhias de petróleo podem obtê-lo, mas olhando realisticamente quem o desejaria? 


O original em inglês encontra-se em:  www.tomdispatch.com


Republicado de : www.resistir.info